A reportagem do jornal O Estado
de S. Paulo acompanha os estudos de Valdirene desde 2010, quando a historiadora
e arqueóloga conseguiu autorização dos descendentes da família imperial para
exumar os restos mortais. Na segunda-feira (18), ela apresentou sua dissertação
de mestrado no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
Agora se sabe que o imperador
tinha quatro costelas fraturadas do lado esquerdo, o que praticamente
inutilizou um de seus pulmões - fato que pode ter agravado a tuberculose que o
matou, aos 36 anos, em 1834. Os ferimentos constatados foram resultado de dois
acidentes a cavalo (queda e quebra de carruagem), em 1823 e 1829, ambos no Rio.
No caixão de Dom Pedro, nova
surpresa: não havia nenhuma comenda ou insígnia brasileira entre as cinco medalhas
encontradas. O primeiro imperador do Brasil foi enterrado como general
português, vestido com botas de cavalaria, medalha que reproduzia a
constituição de Portugal e galões com formato da coroa do país ibérico. A única
referência ao período em que governou o Brasil está na tampa de chumbo de um de
seus três caixões: a gravação Primeiro Imperador do Brasil, ao lado de Rei de
Portugal e Algarves.
Ao longo de três madrugadas, os
restos mortais da família imperial foram transportados da cripta imperial, no
Parque da Independência, à Faculdade de Medicina da USP, na Avenida Doutor
Arnaldo, onde passaram por sessões de até cinco horas de tomografias e
ressonância magnética. Pela primeira vez, o maior complexo hospitalar do País
foi usado para pesquisar personagens históricos - na prática, Dom Pedro I, Dona
Leopoldina e Dona Amélia foram transformados em ilustres pacientes, com fichas
cadastrais, equipe médica e direito a bateria de exames.
No caso da segunda mulher de Dom
Pedro I, Dona Amélia de Leuchtenberg, a descoberta mais surpreendente veio
antes ainda de que fosse levada ao hospital: ao abrir o caixão, a arqueóloga
descobriu que a imperatriz está mumificada, fato que até hoje era desconhecido
em sua biografia. O corpo da imperatriz, embora enegrecido, está preservado,
inclusive cabelos, unhas e cílios. Entre as mãos de pele intacta, ela segura um
crucifixo de madeira e metal.
O estudo também desmente a versão
histórica - já próxima da categoria de "lenda" - de que a primeira
mulher, Dona Leopoldina, teria caído ou sido derrubada por Dom Pedro de uma
escada no palácio da Quinta da Boa Vista, então residência da família real.
Segundo a versão, propalada por alguns historiadores, ela teria fraturado o
fêmur. Nas análises no Instituto de Radiologia da USP, porém, não foi
constatada nenhuma fratura nos ossos da imperatriz.
Futuro
"Unimos as ciências humanas,
exatas e biomédicas com o objetivo de enriquecer a História do Brasil. A cripta
imperial foi transformada em laboratório de especialidades, com profissionais
usando os equipamentos mais modernos em prol da pesquisa histórica", disse
a pesquisadora, que trabalhou três anos sob sigilo acadêmico. "O material
coletado será útil para que as pesquisas continuem em diversas áreas ao longo
dos próximos anos."
Fonte oestadodesaopaulo
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